O novo reajuste das tarifas do transporte semiurbano que liga o Entorno ao Distrito Federal passou a valer no último domingo (22) e já impacta diretamente quem depende do deslocamento diário para trabalhar ou estudar em Brasília.
Autorizada pela Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT), a correção de 2,546% atinge cerca de 380 mil passageiros. Em algumas rotas, o valor da passagem passou dos R$ 12, aumentando o peso do transporte no orçamento de famílias que vivem justamente nas regiões com menor renda média.
De acordo com a ANTT, o reajuste faz parte da política anual de recomposição tarifária e considera custos como diesel, manutenção, peças e demais despesas operacionais necessárias para manter o serviço em funcionamento.
Para os usuários, no entanto, o impacto é imediato. Morador de Águas Lindas, o trabalhador Maykon Neres, de 20 anos, afirma que o custo da viagem já era difícil de absorver antes mesmo da atualização. “Para quem vive no Entorno e precisa ir ao DF todos os dias, qualquer aumento pesa muito. A gente já faz esforço para conseguir pagar”, disse.
Ele também demonstra preocupação com possíveis reflexos no emprego. Segundo Maykon, o custo do deslocamento pode influenciar decisões de contratação.
O economista e especialista em mobilidade Wesley Ferro avalia que esse efeito indireto existe. “O valor da tarifa pode influenciar decisões de contratação, principalmente em funções presenciais. Em alguns casos, o custo do deslocamento passa a ser visto como um fator de risco pelo empregador”, explicou.
Enquanto o preço das passagens sobe, a principal alternativa estrutural para o sistema ainda não saiu do papel. O Consórcio Interfederativo entre o Distrito Federal e Goiás, anunciado em 2025, foi apresentado como uma solução para reorganizar o transporte e permitir a adoção de subsídios públicos.
A proposta tem apoio dos governadores Ibaneis Rocha e Ronaldo Caiado e busca reduzir a dependência exclusiva da tarifa paga pelo passageiro para sustentar a operação.
Segundo o secretário do Entorno, Cristian Viana, o modelo permitiria melhorias no serviço. “Com o subsídio, seria possível renovar a frota, ampliar a quantidade de veículos e melhorar a regularidade das viagens. Hoje, praticamente toda a operação é custeada pela tarifa paga pelo passageiro”, afirmou.
A ANTT informou que permanece à disposição para colaborar tecnicamente com a construção do consórcio, mas ressaltou que a formalização depende dos entes federativos.
Sem mudanças estruturais, o cenário se repete. Tarifas mais altas convivem com reclamações sobre ônibus antigos, baixa oferta de veículos e falhas operacionais.
Com o reajuste já em vigor, o transporte entre o Entorno e Brasília volta ao centro das preocupações de quem depende dele diariamente para garantir renda e acesso a oportunidades na capital.


